SAÚDE AO NATURAL - DE 1974 A 2000

 

É no pós 25 de Abril que a Saúde Natural e a Alimentação Natural passam a ocupar um espaço incontornável, social, público e interveniente na sociedade portuguesa. Até então, a sua existência era subterrânea, segredada, clandestina, tolerada e sob vigilância.
 
Algumas instituições guardam a memória desses tempos e a sua persistência e o seu empenho foram a base para o impulso iniciado neste campo logo em Maio de 1974. É o caso da Sociedade Portuguesa de Naturologia, existente desde o tempo da I República, e da Unimave, nascida poucos anos antes do 25 de Abril. Outras entidades, estas comerciais, fundadas nos anos que antecederam 1974 são, nomeadamente, a Sovex, a Diese, a Itau, a Cereália, a Viv e a Natiris.

Quer isto dizer que à data da mudança de regime a Saúde Natural tinha já condições, tanto associativas como empresariais, para se projectar com a dimensão que lhe competia. E fê-lo. Desde 1975, personalidades (algumas de grande prestígio e saber), começam a visitar Portugal, trazendo ensinamentos através de seminários e pequenos cursos. Também começam a ser publicados livros, principalmente em tradução mas alguns também escritos por portugueses.

A sensibilização do público é enorme e a atenção que os meios de comunicação dedicam ao assunto é também grande. Novas empresas são criadas, em cada vez maior número e dimensão e a nível associativo o movimento é também crescente. Os primeiros congressos e feiras, apesar de incipientes, tentam afirmar-se.

No fim dos anos 70 havia uma faixa significativa de população consumidora de produtos naturais, restrita ainda, mas sólida. Não falamos, obviamente, das plantas medicinais, desde sempre consumidas e cujo uso está profundamente enraizado nos costumes dos portugueses, sejam eles rurais ou urbanos. As ervanárias, locais de culto e parte do imaginário de todos nós, ocupam um lugar à parte nesta história, já que o seu público é fiel e mais não fez do que alargar-se. Estas boticas continuam com características específicas e em grande parte (felizmente) conformes ao padrão que as caracteriza.

Houve, porém, a criação de novas lojas: as chamadas naturais ou dietéticas. Estas continuam a apresentar plantas medicinais, mas em número restrito, se comparadas com o total de produtos para venda. Estas lojas têm sido a montra e a mostra da alteração do consumo e do consumidor-tipo nos últimos vinte e três anos. Como já aflorámos, a ervanária clássica vendia quase exclusivamente plantas. A loja que rompe com esta tradição surge pela via da Macrobiótica. Dá portanto uma importância quase exclusiva à alimentação e impõe-se na segunda metade dos anos 70. As lojas de terceira geração multiplicam-se a partir do fim dessa época, instalando-se em praticamente cada centro comercial, mas também um pouco por toda a parte do tecido urbano. Vendem um pouco de tudo: plantas medicinais e alimentos, mas também cosméticos, utensílios diversos e com frequência principalmente remédios naturais e suplementos (daí o termo " loja dietética" tornado corrente).

Este aumento geométrico do sector exigiu apoio de aconselhamento. Até então, alguns nomes prestigiados pontificavam. São exemplos Fred Vasques Homem, Adriano de Oliveira e Furtado Mateus, ainda vivos. E, de entre os desde então desaparecidos, é indispensável lembrar Indíveri Colucci e José Lyon de Castro. Estes foram os grandes nomes da naturologia portuguesa que fizeram a transição para o último quartel do nosso século. Ainda não surgiram outros a brilhar à mesma altura, mas existem hoje em dia numerosos terapeutas que respondem à procura de um mercado em expansão.

Este mercado tem em cada dia que passa exigências acrescidas quanto à qualidade dos profissionais de saúde. A procura, por parte do público, de naturologistas, homeopatas, acupunctores, entre outros, é crescente e atravessa todas as classes sociais, mas é principalmente notada nas de nível social e cultural médio e médio-alto.

O último passo neste fim-de-século já começou a ser dado: a formação superior dos que o Ministério do Emprego e da Segurança Social designa desde 1995 como Especialistas de Medicina Tradicional --Naturopata-Naturologista; Acupunctor-Naturologista; Homeopata-Naturologista.

É uma carreira fascinante e para a qual já existe ensino de qualidade. O século XXI vai iniciar-se com uma nova geração de profissionais dotados de bases técnicas e deontológicas sólidas e completas. Esse facto vai seguramente introduzir algo de profundamente positivo na saúde pública. Sob esse aspecto, o século XXI vai começar bem.