A Folha d’Alface

Boletim Informativo da BIOCOOP

Ano V – Nº 1 – Janeiro 1998

A Folha d’Alface é o Boletim Informativo mensal distribuído gratuitamente aos sócios da BIOCOOP, cooperativa de consumo com sede no Mercado Municipal Chão do Loureiro, loja nº6, em Lisboa (Tel. 886 05 95).

Endereço na Internet: www.netpub.pt/biocoop

De 3ª a 6ª das 8 às 13h e aos sábados das 7.30 às 14h, a BIOCOOP proporciona a mais vasta gama de bens alimentares produzidos sem químicos (legumes, frutas, queijos, iogurtes, cereais, leguminosas, bebidas, produtos de mercearia diversos, etc.) aos preços mais acessíveis.

Apoio do Ministério do Ambiente/Instituto do Consumidor


"Ano novo,

Cara nova"

Aqui está a Folha d'Alface com um novo visual: trata-se de uma proposta do sócio Carlos Reis, profissional nesta matéria, e que pensamos contribui para uma leitura mais agradável e fácil deste boletim. O Carlos propõe-se fazer este trabalho gratuitamente todos os meses pelo que aqui fica registado o nosso agradecimento.

A redacção do boletim continua da responsabilidade do Ângelo. E já agora: o que pensam sobre o apóstrofe no título do boletim?


Legumes de outrora

As estantes das lojas de frutos e legumes podem parecer-nos ricas e variadas. E, no entanto, que pobreza comparado com o conhecimento dos nossos antepassados que consumiam aproximadamente duzentos vegetais!

E se voltássemos a dar importância

a estes legumes de outrora?

Correntemente não se cultivam mais do que 30 legumes diferentes, enquanto que os nossos antepassados, e não de há muito tempo, consumiam próximo de 200 vegetais, e mais ainda se tivermos em conta as plantas selvagens. Evidentemente, não eram todas comercializadas, e a utilização de certos vegetais era restrita no espaço (localização geográfica reduzida) ou no tempo (limitada a uma breve estação do ano). Mas o facto mantém-se: uma importante variedade de plantas que o homem tinha à sua disposição. Podemos ainda dispor delas, pois trata-se principalmente de plantas indígenas ou pelo menos cultivadas há muito tempo na nossa região de tal forma que em muito casos mantiveram-se como "ervas daninhas"... Foram os legumes e os frutos exóticos trazidos por inumeráveis viagens dos europeus através do mundo que as excluíram da nossa mesa – a tal ponto que os vegetais que fizeram viver os nossos antepassados chegaram ao ponto de desaparecer da nossa memória. E, no entanto, é apesar de tudo graças a eles que nós estamos aqui!

Alimentos remédios

Divirta-se a procurar a origem dos legumes e dos frutos que consumimos actualmente. Constatará que aqueles que cultivamos nas nossas hortas e nos nossos pomares e que poderíamos pensar que são de cá, são na realidade originários, na grande parte dos casos, da Ásia ou da América. É verdade que "a comida da vizinha é sempre melhor do que a minha"... E no entanto, estes vegetais esquecidos que deliciavam os nossos antepassados têm numerosas vantagens: a maioria são rústicos, suportam os maiores frios ou secas e não conhecem nem doenças nem pragas. Os cuidados no seu crescimento são muito limitados, a tal ponto que alguns continuam a crescer nas nossas hortas sem serem convidados...

Por outro lado, tendo sido pouco modificados pela cultura intensiva, estas plantas são incrivelmente fortes, ricas em nutrientes, mesmo em substâncias medicamentosas úteis à nossa saúde: muitas são verdadeiros alimentos remédios a redescobrir para a nossa saúde.

Mais proteínas que a soja!

Comecemos por dar uma volta nos legumes folha, em relação aos quais estamos actualmente tão desprovidos, ao contrário dos nossos antepassados que conheciam mais do que cinquenta.

A urtiga, maugrado o seu desagradável poder urticante, é talvez a rainha dos legumes. O sabor especial dos seus jovens rebentos é geralmente muito apreciado. Podemos prepará-la cozida em água, ao vapor, gratinada, em trate, em souflé, ou de qualquer outra maneira. Mais ainda, a urtiga contém mais vitamina C que o limão (80mg) e é extremamente rica em provitamina A (7.000 UI). Possui um teor em proteínas de fazer inveja à soja: 9% em peso fresco, ou seja 40% em peso seco. Trata-se de proteínas completas perfeitamente equilibradas em aminoácidos! E mais ainda, considera-se a urtiga um excelente depurativo.

 François Couplan

  Etno-botânico, autor de inúmeras obras como Les plantes sauvages comestibles, Éd. Sang de la Terre, e Les legumes oubliés; além de fundador do Institut de Recherche sur les Proprietés de la Flore.

(excerto de artigo publicado em Nature et Progrès, nº7 de Set-Out 97)

(continua no próximo número)

Na BIOCOOP também ...

De tempos a tempos, temos na BIOCOOP alguns destes legumes: os bredos e as beldroegas no Verão, a morugem, as urtigas e os espinafres bravos no Inverno e Primavera, trazidos pelo Ângelo, Zé Miguel ou Fernando; e ainda as labaças, as acelgas bravas, os saramagos trazidos pelo José Cid.

 

Matéria seca (%)

Proteínas (%)

Vit. C (mg/100g)

Caroteno (provit.A (mg equivale. Rétinol/100g)

Cálcio (mg/100g)

Potássio (mg/100g)

Magnésio (mg/100g)

Ferro (mg/100g)

Legumes

Cultivados

8,1

1,3

47

250

64

343

21

1,4

Legumes

Selvagens

15,4

4,5

209

588

238

584

60

4,1

  


Novo espaço para arrecadação

A CML respondeu favoravelmente ao nosso pedido de cedência de um espaço para arrecadação no Mercado do Chão do Loureiro. Trata-se de uma das antigas câmaras frigoríficas do mercado, situa-se no rés-do-chão (parque de estacionamento), tem cerca de 19 m2 e custará uma renda mensal de 9.700$00.

É um espaço essencial para o bom funcionamento da BIOCOOP: ter onde arrumar os produtos em stock. Mas foi um espaço cedido sem porta, sem instalação eléctrica e muito sujo: o José Miguel está a fazer a porta, a parte eléctrica temos a promessa de ser a CML a tratar e o espaço já foi limpo pelos sócios Fernando Cunha e Paulo Vitorino, mas precisará igualmente de ser caiado.

A seguir será necessário dotá-lo de estantes/prateleiras pelo que aqui fica um apelo: se alguém tem estantes/prateleiras/armários que possa ceder, por favor diga-nos, pois podem interessar-nos.

 

Claude Aubert visita a Biocoop

          No sábado 29 de Novembro, a BIOCOOP recebeu a visita de Claude Aubert, pioneiro da agricultura biológica, autor de várias obras de referência e director da prestigiada revista francesa Les Quatres Saisons. Na Folha d’Alface é frequente a publicação de textos seus. Em Portugal a convite da AGROBIO, C. Aubert passou uma parte da manhã de sábado na BIOCOOP tendo trocado impressões com diversos sócios. Adepto de uma agricultura biológica ecológica e de dimensão humana, C. Aubert tem uma grande simpatia pela actividade das BIOCOOPes. Ficou muito interessado pelos legumes folha que lhe demos a conhecer e que são (ainda!) populares em Portugal como a nabiça, os grelos, a couve portuguesa e a couve galega, tendo-nos pedido para lhe enviarmos sementes.

 

Devolução dos empréstimos da compra da carrinha

Iniciaremos neste mês de Janeiro a devolução dos empréstimos que os sócios efectuaram à BIOCOOP aqui há um ano para a compra da carrinha. Os sócios podem optar pela devolução em géneros ou em dinheiro. Ou ainda transformar o seu empréstimo num donativo! A Ford Transit equipada com sistema de refrigeração tem agora 65.000 km e realiza todas as 3 semanas uma viagem a França. Tem sido fundamental para o aprovisionamento regular da BIOCOOP em inúmeros produtos que não se encontram no mercado nacional.

 

Informatização da BIOCOOP

Pretende-se este ano dotar a BIOCOOP de um sistema informático que facilite a sua gestão: encomendas, stocks, fornecedores, receitas, despesas, sócios, etc. Com a dimensão actual da cooperativa parece-nos necessário adoptar esta via para assegurar correctamente o seu funcionamento. Pedimos aos sócios com conhecimentos nesta área (hardware e software) o favor de nos darem as suas sugestões e conselhos.

 

Finalmente! Projecto de obras aprovado pela CML

Foi aprovado o projecto de obras na BIOCOOP apresentado à CML em Outubro passado. Trata-se de um projecto que prevê a ligação entre as 3 lojas existentes sendo para tal removidas totalmente as paredes separadoras das mesmas. Ficará assim um espaço amplo que beneficiará certamente o funcionamento da BIOCOOP. Esperamos avançar com as obras ainda em Janeiro e para tal contamos com uma equipa de sócios constituída pelo Fernando Agostinho, José Miguel, Ângelo, Paulo Vitorino e José Amorim.

 


Regulamentação à vista – Carne biológica

Fomos surpreendidos com a notícia do Diário de Notícias do dia 22 de Dezembro com o título "Carne de vaca vai ter rótulo biológico" e o subtítulo "A certificação ambiental chega aos bovinos e ovinos em Janeiro. Medo da BSE acelera o processo legislativo."

Ficamos a saber que o «Ministério da Agricultura prevê aprovar em Janeiro legislação» sobre carne biológica. Não sabemos é que legislação vai ser aprovada. Será que foram ouvidas as organizações do sector? A BIOCOOP pelo menos não foi "tida nem achada". É urgente divulgar e debater as propostas do Ministério da Agricultura.

Parece que o motor desta iniciativa do governo é a chamada "crise das vacas loucas" ou seja a dificuldade nas vendas dos produtores de carne. Este facto merece desde já a nossa apreensão pois uma tal regulamentação não deve estar a reboque de um problema sanitário de uma espécie. Senão vejamos: será que vamos ter que esperar por uma eventual "gripe das aves" para termos ovos biológicos? Ou pela comprovação da transmissão da BSE através do leite para virmos a ter regulamentação sobre queijo biológico? É que não está proposta legislação sobre a produção de leite e seus derivados, ou sobre ovos ou carne de aves, ou sobre a carne de porco e a charcutaria. E porquê começar exactamente ao contrário de todo o mundo onde já existe um bom circuito de comercialização de leite e lacticínios e de ovos, e onde a distribuição da carne começa ainda a dar os primeiros passos?

Não se compreenderia, por exemplo, que em relação às produções vegetais se legislasse apenas para a cenoura e não para a maçã. Parece-nos lógico que se deva aprovar uma regulamentação global para todas as produções animais tal como se procedeu para as produções vegetais em 1991 (e como aconteceu nos outros países europeus)

Por todas estas razões, de que destacamos a falta de informação e debate, esta notícia não nos deixa, ao contrário do que seria de esperar, estar optimistas. No próximo número esperamos ter mais informações sobre este assunto.

 


Hortícolas: Inverno chuvoso causa prejuízos elevados

Dificuldade no abastecimento da Biocoop

Desde o início de Novembro que a maioria dos solos estão saturados de água. Muitas culturas foram destruídas e outras não puderam ser semeadas ou plantadas.

Os fornecedores regulares da BIOCOOP têm este Inverno uma situação difícil: há 2 meses que não podem "entrar" nas terras. E pior: viram muitas culturas estragarem-se ou baixarem muito a sua produção sem nada poderem fazer. O caso mais dramático é o da cenoura em que foram destruídas as culturas pelo apodrecimentos destas preciosas raízes.

Por isso tem-se revelado impossível abastecer a BIOCOOP com alguns produtos que consideramos serem de "base" como a cenoura. Por outro lado não temos as quantidades que necessitávamos de outros produtos. Apelamos para a compreensão dos sócios para esta situação. Todos sabemos que a agricultura não como a indústria em que entra a matéria prima de um lado e começa logo a sair o produto final do outro. Há um tempo e um ritmo naturais...

Tentaremos colmatar esta situação de 3 em 3 semanas com produtos importados de França.

Janeiro e Fevereiro serão meses muito difíceis e a situação irá gradualmente normalizar, em principio, durante o mês de Março.

 


Assembleia Geral

Realizou-se no passado dia 20 de Dezembro a Assembleia Geral ordinária na qual foram deliberados os seguintes assuntos:

1- Eleição para os Órgãos Sociais para 1998/1999. Foi aprovada por unanimidade a lista proposta.

2- Regulamento Interno. Foi debatida e aprovada por unanimidade a proposta apresentada.

3- Outros assuntos. Foi aprovada por unanimidade uma proposta de aumento da quota administrativa anual de 2.000$00 para um mínimo de 2.500$00, podendo portanto os sócios que assim o desejarem pagar uma quota superior a este valor.

Nota:

– nas votações de 1 e 2 contaram-se 29 votos (ou seja um pouco mais do que 10% dos sócios da BIOCOOP)

– os sócios que participaram na Assembleia Geral realizaram um debate positivo sobre os vários aspectos do funcionamento da BIOCOOP incluindo sobre as perspectivas para o próximo ano.

 


Tâmara: a "rainha" do deserto

A cultura da palmeira-tamareira no Norte de África remonta a mais de 7.000 anos. Cultivada nos oásis, é adaptada ao clima do deserto e constitui um alimento muito rico, perfeitamente adaptado às necessidades dos nómadas dos deserto que são os Tuaregues.

A Deglet-Nour, a rainha das tâmaras, chega-nos do Sul da Tunísia, da região à volta do lago salgado Chott El Jerid, próxima de Tozeur: 6 oásis praticam aí a agricultura biológica, controlada e certificada pela empresa alemã BCS.

Rica em açúcares, nutrientes e sais minerais, a tâmara combinada com o leite é – segundo certos nutricionistas – um alimento completo. Tem um teor muito elevado em fósforo o qual é indispensável para o funcionamento das células. Para os habitantes do deserto, a tâmara é um alimento de base. Assim não é surpreendente que 80% da produção tunisina seja para consumo interno...

A produção

Os 6 oásis que fazem parte deste projecto estão totalmente reconvertidos à agricultura biológica e são controlados uma ou duas vezes por ano por um técnico da BCS, organismo alemão de controlo e certificação. Antes do início da reconversão, uma análise profunda do solo permitiu detectar eventuais poluições; agora todos os anos as tâmaras são também controladas por análise. Os oásis fazem parte de um ensaio de luta biológica contra os predadores levado a cabo pelo Ministério da Agricultura e pela Universidade de Tunes. Pois as lagartas (que passam da romãzeira à palmeira) e as borboletas podem constituir uma séria ameaça à colheita.

Riscos climáticos

Mas a principal ameaça é a chuva. Ao contrário dos outros frutos secos, as tâmaras secam na árvore. Quanto mais sol houver melhor será o seu aroma. Mas com as chuva as tâmaras podem fermentar ou apodrecer na árvore, mesmo antes da colheita. O período do início de Outubro ao fim de Novembro é o mais crítico.

Nestes oásis, os cachos são cobertos durante este período com um papel para os proteger da chuva e do orvalho. Assim é garantida uma qualidade óptima. Com as noites frias e os dias quentes, o amido transforma-se em açúcar e carameliza – uma delícia.

As tâmaras têm necessidade de muita água, proveniente de poços que podem atingir a profundidade de 700 m. Para não sofrerem sede é precisa uma rega por semana, efectuada através de um sistema de canais abertos.

De dois em dois anos as palmeiras recebem uma fertilização sobre as raízes realizada com estrume de ovelha e de cabra compostado. Para evitar que este composto fique seco, os camponeses cobrem-no com areia.

A colheita

É preciso coragem para trepar às palmeiras que podem ter 20 m de altura. Mas os rapazes que fazem esta proeza estão bem treinados pois na Primavera fazem o mesmo exercício para fecundar as palmeiras fêmeas pendurando-lhes um cacho floral de palmeira masculina. Para a colheita, descem as tâmaras com cuidado, cacho a cacho, preso numa corda para não se estragarem.

É dado um prémio pela qualidade o qual motiva os maiores cuidados na colheita.

Estas tâmaras são vendidas na BIOCOOP a granel ao preço de 1.400$00 por kg.

 

A exploração da Tamareira

Com as folhagens podem fazer-se paliçadas, esteiras e cestos; e com os troncos, fazem-se goteiras, traves/vigas e ainda combustíveis para os hammams.

 

Delícias do Paraíso

- tâmaras (6 por pessoas, 12 para gulosos)

- manteiga bio / - 1 gengibre fresco

Descaroçar as tâmaras, descascar o gengibre e cortá-lo em lamelas finas. Forrar cada tâmara com um pouco de manteiga mole (a mesma quantidade que o caroço) e colocar uma lamela de gengibre na manteiga. Um pouco pesado – mas que delícia quando os sabores doce (das tâmaras), a especiaria (do gengibre) e cremoso (da manteiga) se fundem e formam uma harmonia perfeita ao paladar... O ponto final de uma grande refeição!

As tâmaras Deglet-Nour contêm, em média (para 100 g.):

açúcar 61g.

fibras 4,9 g.

sais minerais 1,4 g.

   dos quais

sódio 3,4 mg.

potássio 624 mg.

magnésio 43 mg.

cálcio 38 mg.

manganésio 0,3 mg.

ferro 0,6 mg.