A Folha d’Alface

Boletim Informativo da BIOCOOP

Ano V – Nº 2 – Fevereiro 1998

A Folha d’Alface é o Boletim Informativo mensal distribuído gratuitamente aos sócios da BIOCOOP, cooperativa de consumo com sede no Mercado Municipal Chão do Loureiro, loja nº6,

em Lisboa (Tel. 886 05 95).

Endereço na Internet: www.netpub.pt/biocoop

De 3ª a 6ª das 8 às 13h e aos sábados das 7.30 às 14h, a BIOCOOP proporciona a mais vasta gama de bens alimentares produzidos sem químicos (legumes, frutas, queijos, iogurtes, cereais,

leguminosas, bebidas, produtos de mercearia diversos, etc.) aos preços mais acessíveis.

Apoio do Ministério do Ambiente/Instituto do Consumidor

 


A 13 de Março A BIOCOOP faz 5 anos!

É verdade! Foi no dia 13 de Março de 1993 que nasceu a BIOCOOP e já lá vão quase 5 anos! Gostaríamos de comemorar este aniversário com uma iniciativa de convívio e confraternização. Pedimo-vos sugestões para

animar este aniversário.

 

 


Visita a 5 lagares de azeite bio em Trás-os-Montes

Esta visita foi realizada pelo Ângelo Rocha e pelo Philippe Peyron em 19 e 20 de Janeiro. O Philippe é o director da C.A.B.S.O. (Cooperativa dos Agricultores Biológicos do Sudoeste de França) que é também a central de compras das BIOCOOPes do Sudoeste aonde nós nos abastecemos e para a qual transportamos produtos de alguns agricultores portugueses. Está neste caso a Casa de Valbom e o seu azeite. Agora o Philippe quis vir conhecer o produtor os seus olivais e o lagar. Fomos amavelmente recebidos pelo Sr. José Maria Carvalho Neto, responsável pela Casa de Valbom que nos ofereceu o alojamento e nos guiou também durante as visitas aos diversos lagares da região que produzem azeite biológico. Tratou--se de uma genuína demonstração de hospitalidade trasmontana.

A qualidade do azeite deste ano é muito fraca

Este ano a qualidade da azeitona é muito má, não havendo mesmo memória de um ano assim. A explicação: houve um ataque de mosca tão forte que deitou ao chão uma grande parte da produção e a azeitona que ficou na oliveira está toda "furada" pela mosca. Até este ano, Trás-os-Montes tinha sido poupado a este tipo de praga devido ao seu clima tradicional de Inverno frio e Verão muito quente e seco. Mas, com o Verão ameno e húmido do ano passado, a mosca encontrou um "terreno" favorável para proliferar. Como consequência grande parte do azeite tem níveis de acidez muito elevados.

A mecanização da colheita da azeitona

É agora frequente a apanha da azeitona ser feita através da vibração da oliveira por uma máquina transportada no tractor: é este o caso também da Casa de Valbom. Consequência para reflectir: são precisas apenas 10% das pessoas para a colheita da azeitona. Ou seja: num ano são precisas 100 pessoas para varejar os olivais, no ano seguinte compra-se a máquina e todo o trabalho só ocupa 10 pessoas. Para onde vão as 90 que ficaram de fora?

Os lagares de azeite: tradicionais versus industriais

Dos cinco lagares visitados são de realçar algumas diferenças fundamentais:

– por um lado temos os lagares tradicionais em que a azeitona é moída em mós de pedra, depois prensada nos "capachos" (espécie de tapetes de sisal) e separado o azeite dos outros componentes com a ajuda de água e de centrifugação;

– por outro lado temos os lagares industriais com as chamadas linhas contínuas em que a azeitona é moída em moinhos de martelos, e o azeite é extraído por centrifugação a alta velocidade.

No 1º caso, estão os lagares da Casa de Valbom e do azeite Romeu, que produzem exclusivamente azeite biológico; no 2º caso estão as "fábricas" do azeite Alfandagh, do Dr. Fernando Lopes e da Solinor, que produzem apenas uma parte de azeite biológico. Neste caso existe uma dificuldade que consiste na separação do azeite bio do azeite convencional, o que levou já a uma desclassificação do azeite Alfandagh e do Dr. Lopes.

Existe também uma grande diferença na capacidade de produção entre os 2 tipos de lagares (os industriais obviamente produzem grandes quantidades de azeite) a qual se estende ao sistema de engarrafamento que é feito manualmente (700 garrafas/dia) ou em linhas automáticas (2.000 garrafas/hora).

Para mais detalhes, consultar o quadro comparativo.

 

As opções da BIOCOOP

As nossas opções têm sido pelo azeite da Casa de Valbom e pelo Romeu. Depois desta visita, estas opções saíram reforçadas pelo facto de serem lagares que apenas produzem azeite biológico, de estarem bem limpos e organizados, e pelo facto de haver nos seus responsáveis uma transparência das informações e uma clara distinção mental entre biológico e não biológico. Quanto ao sistema de fabricação tradicional ficamos com uma óbvia simpatia por ele quando confrontados com o sistema industrial. Trata-se afinal de um sistema que deu provas de bons resultados ao longo de séculos...

E já agora, uma vez que o azeite proveniente das linhas contínuas também pode ser vendido como biológico, porque não salientar a diferença nas etiquetas: "Produzido em lagar tradicional com mós de pedra e prensas hidráulicas".

Critérios

Casa de Valbom

Romeu

Alfandagh

Lopes

Solinor

Transparência das informações

XXX

XXX

0

X

XX

Bio / Não Bio

100%

100%

33%

50%

10%

Antiguidade bio

XX

XX

X

XXX

X

Antiguidade no sector do azeite

XXX

XXX

XX

X

X

Certificação 97/98

Socert

Socert

Socert conversão

Desclassificado

Socert

Modernização do lagar

0

X

XXX

XXX

XX

Investimento no lagar

0

X

XXX

XXX

X

Modo de produção

Artesanal - Mós de pedra

Artesanal - Mós de pedra

Industrial - 1 linha contínua

Industrial - 2 linhas cont.

Industrial - 3 linhas cont.

Volume médio (bio)

60.000L

40.000L

330.000L

100.000L

60.000L

Frescura da azeitona

<48 h

<48h

>48h

>48h (??)

48h

Temperatura da água

30º

??

30º

40º

40º

Temperatura à saída

20º

??

25º

??

??

Acidez 97/98

0,8/1,5º

0,3/1º

0,6/1,5º

0,6/1,5º

0,8/1,5º

Armazenamento

ferro revestido de vidro

resinas

inox

inox

??

Engarrafamento

manual

manual

automático

automático

automático

Etiquetagem

manual

manual

automática

automática

automática

Embalagem

vidro branco

vidro verde

vidro branco/plástico

vidro branco

vidro branco/metal

Água de lavagem

corrente

??

parada

parada

parada

Aditivos

nenhum

nenhum

nenhuns

talco

nenhum

Limpeza

XX

XXX

0

X

X

Iluminação

X

XXX

XXX

XX

X

Organização do lagar

XXX

XXX

X

X

XX

 

O fim dos lagares de azeite tradicionais?

Este ano terão sido fechados pelos serviços do Ministério da Agricultura 37 lagares de azeite tradicionais na região de Trás-os-Montes. As razões foram essencialmente o não cumprimento de regras comunitárias. Os resultados estão à vista: grandes fábricas modernas de azeite que resultam de investimentos de centenas de milhares de contos produzem toneladas e toneladas de azeite. Investimentos estes comparticipados pela Europa e pelo Estado português que evidentemente têm que ser rentabilizados. Para isso era necessário acabar com os lagares tradicionais.

Às portas destas autênticas fábricas vêem-se filas de tractores carregados de azeitona que vem por vezes de lugares distantes.

É a opção industrial para a agricultura a chegar em força a Trás-os-Montes.

O fim dos lagares tradicionais de azeite faz lembrar o fim dos moinhos de vento ou de água. Há cerca de 50 anos houve uma estratégia clara de favorecer as grandes moagens que se instalavam então nas grandes cidades. Os interesses eram fortes e era preciso acabar com os sistemas tradicionais de moagem. Como havia alguma resistência e as pessoas preferiam a farinha dos moinhos, acabou-se com eles por via "legislativa": foi proibido às padarias abastecerem-se de farinha dos moleiros por razões de higiene: a farinha das moagens era fabricada em condições que se consideravam mais higiénicas. E assim, em poucos anos, centenas de moinhos pararam e foram ficando as ruínas que hoje conhecemos.

Agora o mesmo se passa com os lagares.

Apetece gritar: abaixo este progresso!

 


Vinho do Porto Biológico – Quinta do Infantado

Houve um problema no engarrafamento que fez com que algum vinho do Porto da Quinta do Infantado se estragasse e avinagrasse. Pede-se a todos os sócios que tenham comprado este vinho para devolverem as garrafas à BIOCOOP pois haverá lugar à sua substituição.

 

 


Tofu – Novo fornecedor da Biocoop

Até agora na BIOCOOP tínhamos o tofu ("queijo de soja") produzido pelo sócio Carlos Ricardo no concelho de Sintra. Agora a BIOCOOP dispõe também do tofu produzido pelo Acácio Santos. Trata-se de um fabricante já com alguma experiência e que agora compra a soja a um agricultor biológico francês. Todos os aspectos de fabrico e proveniência da soja foram confirmados por uma visita pormenorizada que o José Miguel e o Fernando realizaram às instalações do Acácio perto de Olhalvo.

A existência de 2 fornecedores de tofu era reclamada por alguns sócios para assegurar o abastecimento regular da BIOCOOP.

 


"3 em 1": as três lojas separadas deram lugar a uma só loja ampla.

 

Nos dias 19, 20 e 21 de Janeiro, os sócios José Miguel, Fernando Agostinho e José Amorim deitaram a "baixo" as 2 paredes que separavam as lojas da BIOCOOP dando cumprimento ao projecto de obras aprovado pela CMLisboa.

O trabalho foi muito duro dada a dimensão das paredes e o facto de estarem "forradas" de mármore fixo com uma forte espessura de cimento cola. Foram cheios 2 contentores de 7 m3 cada de entulho e foi necessário usar um martelo pneumático.

Esta obra só foi possível graças à fantástica dedicação, entrega e profissionalismo dos 3 sócios em relação aos quais a BIOCOOP fica com uma enorme dívida de gratidão. Além deles, deram ainda uma grande ajuda as sócias Alexandra Contreiras, Anne Rasquin e Fátima Amorim.

A BIOCOOP ficou com o espaço amplo que há muito desejava.

Durante os próximos meses irão sendo feitos os melhoramento necessários a uma boa apresentação dos produtos e os ajustamentos a um melhor funcionamento da loja, pelo que pedimos a compreensão dos sócios.

 

Em breve uma "Biocoop" no Porto

Há no Porto um grupo de pessoas com um projecto de criação de uma estrutura do tipo da BIOCOOP de Lisboa. Este projecto tem sido aprofundado ao longo de diversas reuniões e existe uma forte motivação para a sua concretização.

Da nossa parte temos disponibilizado toda a informação sobre o nosso funcionamento. O objectivo é claramente a cooperação entre a iniciativa do Porto e a BIOCOOP de Lisboa. Esperamos para breve a visita a Lisboa de dois dos entusiastas deste projecto, a Luísa e o Bertrand, para se inteirarem em pormenor do funcionamento da BIOCOOP. Foi-nos já apontado o princípio de Abril para o início da actividade no Porto. Os interessados poderão contactar com a Luísa Silva pelo tel. 02/596525.

 


BIOCOOP Perspectivas Astrológicas para o ano de 1998

Tal como no início de 1997, publicamos seguidamente o horóscopo da BIOCOOP para 1998. Mas antes recordemos a introdução publicada na Folha d'Alface de Fevereiro de 1997: "Com o Sol em Peixes, a Lua em Sagitário, o Ascendente em Gémeos e uma distribuição regular de planetas por todos os quadrantes, a BIOCOOP terá uma natural inclinação universalista. Na prática, é uma atitude que congrega na mesma unidade diversas tendências complementares, que Saturno em Aquário tende a converter em espírito de missão."

O trânsito com que a BIOCOOP inaugurou o ano de 1998 é o de Júpiter em conjunção com o Meio do Céu e Saturno, que geralmente se traduz numa imagem pública idónea, favorável ao assumir de responsabilidades que exijam rigor e disciplina. Este trânsito de Júpiter simboliza o começo de um ciclo de actividades socio-económicas de 12 anos.

Ao mesmo tempo, o esforço de adaptação a novas condições está presente através do trânsito do mesmo Júpiter em quadratura a Plutão, na casa do trabalho, que se estende até Fevereiro.

Algumas dificuldades no cumprimento dos ideais poderão surgir durante o mês de Março, devido ao trânsito de Saturno em conjunção com Vénus e em quadratura a Urano e Neptuno, que exige rigor e responsabilidade na maneira como a BIOCOOP interpreta a visão aquariana.

A partir de Maio, momento em que Júpiter passa em conjunção ao Sol, e até Março de 1999, as actividades tendem a decorrer com fluidez e realização, exceptuando, possivelmente, o mês de Novembro, devido à quadratura de Júpiter ao horizonte, que poderá ser sentida como dificuldade nos contactos.

Em Junho, a Lua começa a progredir na 9ª casa, aumentando as possibilidades de contacto com o estrangeiro.

José Luís Nascimento dos Santos

 


Carne "biológica" – Proposta de regulamentação não satisfaz

No seguimento da notícia publicada na última Folha d'Alface, surgiu uma proposta do Ministério da Agricultura para a regulamentação nacional da produção de carne "biológica". Esta proposta debruça-se apenas sobre a carne de vitela, novilho, bovinos adultos, borregos e cabritos, deixando de fora as produções de leite e seus derivados, de aves e ovos, de suínos e seus transformados. Em relação a esta questão, defendemos uma legislação de base (horizontal) para toda a pecuária e seus transformados, com capítulos específicos para cada espécie. Não nos parece lógico, por exemplo, um rebanho de ovelhas poder ter os seus borregos certificados como biológicos mas o seu leite/queijo não o poder ser. Por outro lado um produtor biológico com o mesmo rebanho de ovelhas pode ter uma criação de patos, a qual já não pode ser comercializada como biológica embora seja praticada com os mesmos princípios. No caso específico da BIOCOOP, existe um grande interesse de muitos sócios por ovos e lacticínios os quais não estão englobados na actual proposta. Quanto às regras definidas, existem várias com as quais não concordamos ou em relação às quais levantamos sérias dúvidas, sendo de salientar a autorização de 2 tratamentos veterinários com produtos químicos de síntese durante a curta vida de um borrego ou de uma vitela. Defendemos um texto legislativo absolutamente claro quanto ao princípio da não utilização de produtos químicos de síntese para que não sobrem dúvidas nos consumidores e a pecuária biológica seja credível.

Foram estes pontos chave que apresentamos numa reunião para discutir o assunto no dia 29 de Janeiro e na qual participaram Maria da Conceição da Associação Salva (Algarve), José Pedro Raposo da AGROBIO, Jorge Ferreira (técnico da AGRO-BIO) e o veterinário Alves de Almeida da Direcção Geral de Veterinária. As posições da BIOCOOP foram bem acolhidas. Discutiram--se também cada um dos artigos da proposta oficial tendo-se delineado propostas alternativas. Estas foram apresentadas pelos representantes da Salva e da AGROBIO numa reunião realizada no Ministério da Agricultura, o qual deu um prazo de mais 2 semanas para as associações apresentarem uma proposta que abarque todas as actividades pecuárias.

É de salientar negativamente a pressão exercida para que se aprove rapidamente uma legislação quando a mais elementar prudência aconselha a uma reflexão aprofundada e calma de todos os interessados dada a importância do assunto. Com contornos extremamente perigosos é o facto dessa pressão se fazer no sentido da aprovação de regras demasiado permissivas quanto aos princípios de base da agricultura biológica e que lançarão o descrédito em toda a iniciativa. Vamos ficar atentos ao evoluir desta questão e procurar dar contributos positivos para a sua resolução.


Apicultura biológica

O Ministério da Agricultura pretende igualmente aprovar regulamentação para a produção de mel e outros produtos da abelha com a denominação de biológica. Para tal existe igualmente uma proposta de texto que carece de ser aprofundadamente debatido com os apicultores e os consumidores. Este texto parece-nos igualmente insuficiente, por exemplo, quanto à possibilidade de as abelhas poderem "pastar" em campos de agricultura química. Vamos estar atentos também a esta questão.